Las casas

Camino por las casas
como quien reconoce un sitio antiguo
que un día ha pisado con otros pies,
todavía no endurecidos por los dolores de la vida

Camino por las casas
como si a mí me perteneciesen sus musgos
bajo las paredes ya arrugadas por el tiempo
como si a mí me perteneciesen sus sonrisas y frustraciones,
que hacen eco por los pasillos y duermen en las arcas
olvidadas en los sótanos de los recuerdos

Camino por las casas y por la arena blanca de la noche,
con la respiración sin aliento de la noche,
refleja en los espejos,
donde tantas veces me encontré al perderme

Y al tocar sus contornos, sus grietas
casi envidio el metal, que lleno de sus aires
día tras día, se puede, libre, gritarlo

Cuándo amanece – y me voy con el sol a quemar mis retinas
(sus espaldas a mezclarse con la voracidad del paisaje)
cierro despacio los ojos, para que pueda verte de pronto
desde adentro, en la imagen pulsante
que se incendia en mi pecho

Camino por las casas
como quien camina en su morada

Marina Tavares

* Texto publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

Abraço da Vênus

Não precisamos beber a beleza para que ela nos saia pelos poros. Tampouco, riscar seu traço negro por nossas pálpebras fatigadas. Não precisamos de seu vermelho, de sua fenda, de seu gingado que nos é ensinado desde antes de aprendermos a caminhar. Não precisamos de sua frágil malemolência, dos cabelos jogados, dos sorrisos forçados, dos ventres contraídos. Não precisamos de seus bicos finos, sua voz mansa, suas meias-calças e verdades. Não precisamos imitar a beleza, como se em nós ela já não habitasse, como se não fosse somente em nós que ela existisse, e não em nossa reprodução, em nossa fotografia, em nosso signo.

Estávamos em frente ao forno quente – a voz inaudível. Olhávamos para baixo com nossos vestidos recatados. Estávamos na louçaria areada, nas gravidezes, nos almoços de domingo. Erguemos os olhos: as páginas gritavam, erguemos os olhos e gritavam os outdoors, e gritavam as perfumarias e as academias com seus espelhos. Trancaram-nos em nossas vestes e hoje nos despem vorazmente. Apertam nossos pés, nossas cinturas e anseios. Sufocam-nos o corpo em outro corpo pré-moldado; outro corpo feito sem carne, sem linfa ou suor; outro corpo feito de imagem que nos precede, de imagem que nos entorpece as vontades com sua falsa liberdade.

Mudamos o curso do rio com nossas vozes, vozes doces, graves, serenas, intranquilas. Vozes que eram e são o que sempre serão: nossas. Fizemo-nos ouvir. Hoje, gritam nosso grito em nossos ouvidos. Sintetizam nossas escolhas em obrigação, sintetizam nossas singularidades em conduta. Vendem-nos independência, ao passo que consumimos a nossa sujeição.

Não nos contemos na sucintez de seus slogans, nem em predicados cochichados nas calçadas. Não é nosso o caminhar moribundo sob holofotes – a dentadura irretocável, a máscara de cal e poeira, os gestos afetados ou contidos. Nosso pulso pulsa, nosso peito arde. O pó do mármore amputado não é a gota do sangue que nos cora. Somos o que sempre soubemos, o que não nos carece ensinamentos – um pensar que se acende, um querer que se afaga, uma estrada que somente a cada uma de nós se revela, enquanto a todas nos une o fio invisível da existência, a paragem efêmera da vida: o escolhimento.

Marina Tavares 

Texto publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

 

Venâncio do manancial de todas as graças. Venâncio dos pés descalços, da laranjeira, do pau-a-pique. Venâncio de Bom Jesus da Lapa, que correu atrás da bola improvisada e sentou ao pé da cadeira de palha, esculpindo rostos na casca da macaxeira, enquanto a mãe talhava a raiz para torrar a farinha amarela. Venâncio banhado à margem do Velho Chico. Já lavei toda essa roupa, já fiz minha oração. Jesus limpa meus pecados, que o sabão não limpa não. Venâncio que cresceu entre grutas e recebeu na testa em cruz a água do rio. Venâncio que caminhou pela terra batida até a escola e lá aprendeu o fê, o guê, o lê, o mê. Venâncio do chapéu florido, das fitas coloridas, que agradeceu com uma vela cada graça concedida. Venâncio que ouviu o canto do preto e do branco da Gralha-cancã. Venâncio que quase aprendeu os oito baixos, que ouviu as histórias de Dona Maria, sentindo o cheiro da lenha queimando, da querosene do lampião. Venâncio que soube de cor o causo de Seu Izaías e, hoje, o conta como se fosse ele o menino que olhou para a cabeça de Virgulino, naquela escadaria em Piranhas. Venâncio, que se fartou de mugunzá, que tirou garapa da cana, que passou férias na capital envolta em mar e acarajé.

Venâncio que correu estrada afora, sacolejando em um ônibus da Itapemirim. Venâncio, dos olhos curiosos, das malas no Tietê. O que sentou nos degraus da Igreja da Sé e ouviu o improviso do pandeiro de Teodoro, a pregação inflamada do pastor dentro de um terno suado, o estalar dos fios do ônibus elétrico, seguindo seu trilho invertido. Venâncio da fila da agência de emprego, na República. Venâncio, o da cama de cima do beliche do canto, da vaga alugada na pensão no Largo do Arouche. O que economizou dois anos de ordenado para trazer Teresa e Dinho. Venâncio que ajeitou seu canto no Sacomã, que subiu tijolo, empurrou carrinho de milho, que vendeu bala e chocolate na porta da estação Artur Alvim. Venâncio, que pagou, boleto por boleto, as vinte e quatro prestações das Casas Bahia. Que subiu, com Otacílio, a laje para puxar o quarto do bacuri que vai chegar. Venâncio que decidiu terminar os estudos à noite e tomou por sua a alegria de Dinho ao ver, pela primeira vez, as luzes do parque de diversões na Barra Funda.

Venâncio, agora, é o das bandejas, do avental, das comandas amarelas. Venâncio, o chefia, o amigão, o companheiro, entre o leva e traz de tulipas transparentes, do dourado da cerveja, do cheiro de fritura da macaxeira que um dia viu sair da terra. Venâncio, que carrega em seus gestos involuntários, em sua coreografia certeira por entre as mesas, o trejeito do menino que subiu e desceu ribanceira, que se lambuzou de siriguela, que cheirou a açucena e a murcha flor do mandacaru. A cada vogal aberta de seu sotaque manhoso, a cada sorriso caloroso, a cada Assum Preto assobiado baixinho, em meio ao falatório indiferente do bar na Aclimação, Venâncio, sem saber, reveste de humanidade a palidez dessa grande São Paulo. Venâncio e todos os seus conterrâneos.

 Marina Tavares

Há um ano, meu querido me deixou. Há um ano, transito, pela primeira vez, por um mundo alheio à sua existência, um mundo que não mais se reflete em seu olhar, mesmo que focado em algum horizonte que me era invisível. Há um ano, meu pai se tornou começo, meio e fim: história completada, contada através de memórias e canções; poeira de estrela, fragmentos de vivências, sensações e emoções espalhadas por todos nós que compartilhamos a vida com ele.

Ao longo desse ano, meu coração aquietou, resignou-se, aprendeu a aceitar o inaceitável, a compreender o incompreensível, a não mais procurar razão nos caminhos percorridos por aquele que foi só sentidos. Ao longo desse ano, sem qualquer esforço de minha parte, seu nome se tornou infância e poesia. Tornou-se os cafés da manhã na padaria, as nossas longas caminhadas pelas ruas de Brasília, o cheiro dos livros na estante, o nervosismo ao compartilhar meus primeiros poeminhas, as palavras cruzadas, os óculos sobre a mesa, o jornal matinal e aquela música gostosa vinda do fundo da sala. Sem qualquer esforço de minha parte, sua ausência absoluta me devolveu a presença que eu não conseguia mais agarrar.

Aprendi, então, que amor não carece de entendimento. Não amamos alguém por suas feições, ações, gestos ou palavras. Amamos, puramente, sua essência. E eu, fruto da essência de meu pai, perpetuei, em minha própria, o amor que nele já existia. Por isso, o amei. Por isto, o amo: porque dele nasceu a minha substância e, nela, ele ressoa, infinitamente.

***


Clésio Ferreira – 24/10/1944 – 06/07/2010

***

Hoje, fico com Corda Bamba, música do trio, voz do meu pai.

Para ouvir:  Clodo, Climério Clésio – Corda Bamba

Corda Bamba
(Clodo Climério Clésio)

A vida tá correta reta
A vida tá correndo rindo
A coisa tá roendo sendo
O tempo tá ruindo findo
Eu vou me equilibrando brando
E o tempo vai passando quando
Eu tô comigo ando

Porque o dia a dia trama
E tece sempre o mesmo drama
O amor que a gente ama
Vai morrendo devagar
Carece que se reze a prece
Carece que se apresse o passo
Em outra direção

                                                                Magritte

Com licença… Eu não reconheci firma em cartório, não assinei nenhuma autorização, não te aguardei segurando uma placa no desembarque do aeroporto, não solicitei a presença, ao guichê 04, do portador da senha 0112L, seu nome não consta em nenhuma lista de classificados, nem para um café com bolo na mesa da cozinha eu te convidei. E, mesmo assim, aí está você, sentado nessa cadeira, com esse sorriso no canto da boca e esse olhar que parece dizer tudo. Eu não escancarei nenhuma porta para que atravessasse impetuosamente esta sala, como um velho conhecido que jamais perde a intimidade. Peço, por favor, que, a partir do dado instante, troque seu nome, para que eu detenha o domínio de meus pensamentos quando o pronunciarem, que mude sua voz, para que meu peito seja preservado dessa percussão inquieta. Se possível, peço que mude suas feições e suas mãos e, se não for demais, mude também suas ideias, torne-se mesquinho, para que eu não mais admire sua integridade. Continua aí? Apague essa luz do seu olho, vamos! Mas, será o Benedito? Não falo com as paredes! Troque essa boca, esqueça essa música. Por favor, escolha mal suas palavras, para que eu não mais seja tomada por suas orações. Torne-se insensível, rude, amargo, troque esse cheiro – ah, esse cheiro! –  e, pelo amor de tudo que for mais sagrado… vista essa roupa! Não, não vista, vista. Não troque esse nome, troque. Não tenha outra boca, tenha. Não ouça essa música, ouça. Não, não faça isso, não me olhe assim, assim não respondo por mim. Já disse para fechar a camisa, fazer essa barba, esconder esse peito, botar essa calça, ser outra pessoa?

vira outro, se vira
ou minha cabeça revira
não posso com a noite abrasante
não posso com o ar ofegante
não posso eu com essa lira


Marina Tavares


                                                       Weberson Santiago


Feito o tempo, feito o dia, restam as sandálias e a fadiga. Pelas paredes, pequenos rios a lembram da umidade humilhante, da fuga iminente. Precisa de um café, mas teme acender o fogão. Precisa de um ouvido para lhe escutar. Mas, feito o tempo, já não há. Somente bocas, pequenas bocas, ávidas por repetir respostas que sua boca não possui. Ela cala. Pelos noticiários, imagens de todos os cantos. E, em todas, o mesmo canto ordinário de outras bocas sem respostas. Chegaria ali. Ela sabia. Todos sabiam. Pela vizinhança, entre os pães recém-saídos dos fundos da padaria, entre rabiolas cruzando a fiação dos gatos, entre as cestas básicas envoltas em sacos pretos, entre os suores e os cansaços e os pequenos copos de aguardente ao cair da tarde: a possibilidade. Uma rede intransponível de certeza presente e incerteza futura.

Há os que têm parentes. Levam as mochilas dos meninos para outras bandas, que igualmente afundam em esquecimento, mas se mantém firmes sobre a terra úmida. Há os que permanecem, rijos de dignidade, trêmulos de humanidade. Os dias passam, tenta se manter serena, não quer que os pequenos percebam. Precisa ter o controle. O único que possui é um terço de contas sob os dedos fechados. Nossa Senhora dos Desesperados, valei-me. O mais novo pergunta o que é catástrofe natural. Ela não sabe. Até hoje, só conheceu a catástrofe.

Os olhos abrem de espanto. A água cai como líquido amniótico a escorrer pelas pernas: a dor seguinte é inevitável. Leva, dona Zumira, leva meus moleques pro asfalto. As crianças saem assustadas. Sozinha, com os pés já cobertos, tenta, em vão, retirar a água que começa a invadir a sala. Água de nuvem e lixo. Água salgada. O balde é pequeno e inútil. Precisa tentar. É o seu miserável espaço no mundo. É o muito que o mundo lhe deu. A lâmpada cada vez mais próxima. É loucura. A fraqueza está em tentar ser forte. Ela corre. Do lado de fora é lama corrente, gente corrente, vida corrente pela ribanceira. Leva, Teresa, leva meus moleques pro asfalto. Ela os pega pela mão e segue ladeira abaixo. É firme o chão no asfalto. Olha para os filhos da vizinha. Seus olhos tentam dizer que está tudo bem, como se dissesse para os seus próprios filhos, que seguram as mãos de outra vizinha, que os olha a tentar dizer que está tudo bem. O morro, montanha degelando, se desfaz diante deles.

É seguro voltar? Dizem pra ficarmos longe. Ainda pode cair. Não faz isso, Teresa. Eles não sabem o que dizem. É a minha casa. Teresa abre a porta. Não há casa. Os boletos das prestações da geladeira boiam ao lado da geladeira que boia. É uma parede de limbo. A casa morreu. Acaricia o enfeite em forma de coração de acrílico trincado: “Eu te amo”. Respira fundo. Do lado de fora, móveis, muitos móveis, de todas as casas da rua, de todas as ruas da comunidade. Ela mesma começa a retirar os seus. Cada balde de água leva consigo um punhado da raiva. Tudo posso naquele que me fortalece. Tira, limpa, varre, dignifica-se. Traz os filhos de volta.

O sol nasce e morre ao pé do morro. O sol nasce e morre, como há nascido e nascerá. Sua presença é calor e alívio. A casa vive. Vamos às contas e aos ratos. As estações passam. As nuvens voltam. Restam as sandálias, resta a fadiga. Precisa de um café, mas teme.

Enquanto o labor e o esquecimento forem a canção conduzente de seus dias, a chuva, que faz brotar a semente, que faz crescer o alimento, será o gatilho empunhado por mãos sujas e seus relógios dourados.

Marina Tavares

*texto publicado, originalmente, no jornal Brasil de Fato



                                                                  Hokusai

Para un amor que no ha nacido

El silencio es la más clara palabra
En la rareza de esta hora extrema
Cuando el deseo es la guía
Y lejos está el ojo que sobre él no reposa
En esta pelea para contener las venas

El silencio es la sencillez de la verdad
Refleja en su letargo la respuesta ya sabida
Y dice que la vida sólo puede ser vivida
Dondequiera que esté el pensamiento
Que lo cambia a cada movimiento
Y lo que fue llegada, pronto se volvió partida

Manos, pelos y la risa
Son encantos del desconocido
Y tal vez lo sean por no haber vivido
Quizá se basten en haberlo querido
Sutil y fluido como la leve brisa

El espacio del recuerdo del momento
Contiene la fuerza del puro sentimiento
Que no se muere lo que no ha nacido

Marina Tavares


Klimt

A gente quer é um olho pregado na nossa existência. A gente quer é testemunha, toda ela. Nunca vi um só sujeito desenquadrado. Se o fosse, nem sujeito era. A gente quer é a interpretação da gente mesmo. E não há interpretação sem quem penetre. A gente quer é um passo do lado do nosso, pra lembrar que pegada é bem de quem pisa. O que existe, existe diante do rastro. É por isso que a gente se aglutina, toda ela. Faz amigo, amor, tesão. A gente cria laço. Que laço não amarra, lembra. Lembra, pelo olho alheio, que nosso olho é visto. Se visto, existe.

A gente quer é ver a outra existência e nela enxergar o que tem ou não de nós. Nada somos, senão exclusão. Nele, o que não há de mim o torna. Por isso, sou. Por não sê-lo, me assiste. E assim o quero. Todos nós. Ah, a gente quer é uma mão que pegue a nossa, pra provar que temos mão pra encostar.

Somos através do outro. O precisamos para nos saber. Por isso, o olho que a gente busca é olho que admire. Quiçá, seremos o que vêem, admiravelmente.

E assim seguimos, singularmente: emparelhados.

Marina Tavares

* Ana ama o galo, o mar, o ramo. O lago ama Ana?

* Mega rima é a miragem.

*E dá duas… saudade.

* A maca aloca a cola: a cama?

Marina Tavares

Sim

Ata os laços, conduz esse nosso caminho
Em par, revela a vida a própria sorte
Bem quando se escorre, em dupla morte
E faz tornar completo o ser sozinho

No leito, dois em um, despercebidos
Se findam, num só gozo soberano
Inúmeros caminhos percorridos

Se já pensamos entre nós haver enganos
Nós descobrimos: engano é a incerteza
Qualquer distância que desuna é aspereza
Que já não cabe na grandeza de meus planos

Marina Tavares

Nunca a deixei me tocar profundamente. Olhava por sobre seus ombros, como se deles visse além, adiante. Sua conversa sempre me trouxe impaciência, a velha nova conversa: os mesmos assuntos, a mesma revolução de botequim (ou pior, a mesma contrarrevolução de botequim), a mesma pele bronzeada, circulando por uma mesma cena alternativa que, na maioria das vezes, mais parece a regra. Desde que a conheci, nunca me pareceu mostrar verdadeiramente a cara. Sempre assim, esguia e maquiada, ela ia. É bonita, admito, nasceu bonita e esse é o seu maior trunfo, sempre. Quando alguém se emputece por sua frieza, logo a perdoa por sua beleza. Somos assim.

Apesar dos pesares, há anos caminhamos lado a lado. A ela permiti que tivesse em mim alguns de seus trejeitos identificados. A mim ela permitiu que lhe amasse e odiasse, ora sim, ora não, sem jamais guardar rancor, a  generosa. É metódica, regrada, repetitiva. Sou inconstante, desorganizada, sedenta. Não poderia haver em nossa convivência conflito maior. Eu não preciso dela, tampouco, ela de mim. Haveríamos de ser, separadamente, da mesma maneira que unidas: ela com suas linhas pré-traçadas, eu com meus caminhos tortuosos.

Mas, hoje, andando por Santa Cecília, atravessando a Avenida São João, me dei conta que os nomes de santo não bastam, por mais cativantes. As esquinas, que encantam, não suprem quem cresceu sobre dois eixos. Hoje, caminhando por São Paulo, percebi que cidade não se escolhe, se nasce. E quero Brasília todinha pra mim.

Marina Tavares

Champs Elysées

Filete de vida escorre
Pela Alameda Eduardo Prado
Escorre putrefato sobre a frieza do asfalto:
Filete de água turva deslizando ininterrupto
A viagem de só ida margeando o concreto

Sobre o concreto extensão e forma
Como jogadas do edifício
Estático, paralisado
Na Alameda Eduardo Prado:
Um pacote ensimesmado
Tendo à mostra a teta murcha
O ílio ferindo a pele
A boca lambendo a água
O corpo lavado em lama
Corrente sobre o asfalto

É teta pele risco:
Filete de vida turva
Que barbárie fosse bicho
Que barbárie sendo moça

Filete de moça escorre
Filete de moça morre
Pela Alameda Eduardo Prado

Marina Tavares

Ponteiro

Perdi a hora
a Hora da Estrela, A Estrela da Manhã
A manhã sendo tecida pelos galos de João
[Que amava Tereza e foi para o estrangeiro]
Perdi o trem com o menino
correndo Dentro da noite veloz
Perdi o tempo
[Que era quando
para quem houvesse espaço]

Perdi a hora e a estrela cadente
Já havia caído na mão de Leminski
O homem já havia saído da Tabacaria
E atravessado A Rua de Torquato
Perdi Cacaso e Alfredo da Rocha
Agenor de Oliveira, quantos perdi!

Perdi a hora
Tardiamente minha carne foi parida
E hoje me resta o papiro
E hoje me restam palavras
Me resta construir
com duas mãos
[mis alas que bastan
para tu libertad]

Marina Tavares

Menino Meabraça


eu sou o Menino Meabraça, me abraça? um banho eu volto já e deputado vai votar em quem o celular vi que o dólar caiu vá ver o arroz um absurdo o ipva nesse tempo doido acho melhor não arriscar estrada esburacada um perigo a gente paga todo ano uma fortuna acham que a gente é trouxa. eu sou o Menino Meabraça, me abraça? quer ver um filme parece que saiu um daquele diretor aquele que eu vi naquela foto no programa o conselho da firma vai derrubar alguém amanhã não sei onde vai caber mais gente nessa cidade daqui a pouco vou ter que dividir a cama tatuar nome de namorado que burrice essas modelos não têm nada na cabeça mesmo vintecinco centavos um pãozinho olha o gás daqui a pouco vamos voltar pra lenha aquele consórcio pareceu um bom negócio vamos levar a molecada pra praia já pensou a alegria essas crianças de hoje só querem saber de videogame vai começar o jornal no intervalo coloca a lasanha no microondas. eu sou o Menino Meabraça, me abraça? booooom dia, amiguinho, um beijinho pra você! onde já se viu trezentosequarenta reais por mês pra um moleque desse tamanho cartilha agora é quase preço de livro de medicina a minha mãe disse que azeite quente é bom pra tersol esse troço teima em aparecer no menino culpa desse tanto de bobagem que ele come tem que pôr ele no inglês ah já chamou o rapaz pra ver esse chuveiro é um perigo ele ficar assim. eu sou o Menino meabraça, me abraça? booooom dia, pequenino, aqui é a sua amiguinha com um monte de desenho pra você! ambição do tirano com seteletras você sabe o carro hoje foi pra oficina fiquei no meio da rua. eu sou o Menino Meabraça, me abraça? pula comigo, amiguinho, você conhece a musiquinha, eram quatro, agora, três, vou contar mais uma vez! em quando eu acho que esse menino precisa de um oculista fica na frente desse troço o dia todo. eram cinco cachorrinhos, um saiu para brincar, ficaram quatro cachorrinhos. Eu sou o menino meabraça, Me abraça? um abraço pra você, amiguinho e, já sabe, amanhã, no mesmo horário, a sua amiguinha vai te dar um abraço deeeeeeesse tamanho!

Marina Tavares

“Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.” Fernando Pessoa

Conatus

A linha é contínua, a linha emaranha
A teia da linha, no centro, a aranha
Do centro da teia, avista dezenas
Centenas, milhares de linhas pequenas
E tenta escolhê-las, quiçá, percorrê-las
Mas tudo é confuso, um plano difuso
Não pode vencê-las, sequer entendê-las
A linha é contínua, ao passo que os passos
São curtos demais
De modo que mostra o ser incapaz
De ver o seu lume, deixar o perfume
No rastro por trás de cada passada
E quanto mais anda,  maior o caminho
No centro da teia, é só um menino
Ao longe um porto, avista uma escada
Mas tem pouco braço pra tanta braçada
E quanto mais anda,  mais linha enrola
Se lembra de quando, nos tempos de outrora
Por nada saber, se viu sapiente
Seu corpo dolente jogado na cama
A vida pulsando por suas entranhas
Um mundo adiante, que agora é tão grande
É grande demais
No centro da teia, o ser incapaz
Levanta bandeira, arrisca um poema
Mas não há maneira de ver seu dilema
Caído ao chão, vencido no grito
Que o peito aflito pra sempre quer mais
Que não há vivência que baste à memória
Percorre a teia montando sua história
A sua presença é pura querência
E a permanência é presa tão frágil…
No centro da teia, se é vulnerável
Aos ventos que invadem sem pedir licença
Derrubam o mosaico de sua existência
Que tenta colar diante do espelho
No centro da teia, em meio ao caminho
Imensos seus feitos? Ainda é sozinho
De olhos vendados, deixando pegadas
Pra sempre um menino:
Não sabe de nada.

Marina Tavares

Rima escorre, rima afaga

Palavra fugidia
Um plantio de pé de mágoa
Um pensar que não se acaba
Acabando em poesia

Palavra que não acho
Ou não acha a mim, palavra
De que serve enclausurada?
Em silêncio é quase nada
Que só vale se falada
Se cantada ou declamada
Em silêncio não existes
Tu, palavra que resistes
A quem por ti persiste
E insiste em ti, palavra

Foge, corre, condenada
A ficar na minha cabeça
Há de ter quem te mereça
Se não eu, alguém te encontra

Ah, palavra feito onda…
Faz que chega e vai mansinho
Voa como passarinho
Quando encontra a passarada

Deixe estar, eu me resolvo!
Se não brota em poesia
Brotará em qualquer morro
Terá forma de folia
De olhar e de socorro
Terá pés e mãos vazias
Surgirá em pleno dia:

Eu, de olhos bem atentos
Gritarei aos quatro ventos
Cada letra que hoje nega
E você, palavra ingrata
Pondo fim ao meu tormento
Brilhará em meio a treva

Marina Tavares

Paraná para cá

Leminskiano:
Palavra seta
Espeta a lira
Do cotidiano

Marina Tavares

AB13088

Nadinha de nada? Mentira, é maçada! Te falo, jurando com beijo no dedo. Aqui não tem nada que valha um segredo. Nem uma pontinha de algo com nome, nenhuma migalha que mate essa fome. Tá oco, vazio. Tem eco, cê ouve? Ouve, ouve, ve, ve… Verdade!E não é? Não pode, mulher. Conheço há tempos, já o vi transbordando, com mil sentimentos. Tem vez que é que tão quente que arde até a mente de quem chega perto. Pois hoje, tá seco até o horizonte, parece um deserto. E aquele aguaceiro jorrando adiante? Miragem, seu tolo, secou essa fonte. Não lembra? Esqueci. Para mim, ainda ontem o vi explodir. Bem sei, tinham cores e essas alegorias. Exato, e a isso chamava alegria. Alegria, bonita palavra. Se é… E se a gente o escava? Quem sabe, no fundo não passe um rio? Mas, rio em deserto? Eu sei, é incerto. Mas, vale o esforço. Se há, lá no fundo, qualquer sentimento, a gente abre um poço e pula lá dentro. Você não tem medo? Mas, eu? Que rompante! Conheço essa terra, é só um peito errante, tipinho antigo… batido, eu diria. Um dia quer tudo, no outro, está mudo, opaco, sem vida… Esperto você, chegou inda agora e vem tocar na ferida?  Tudo bem, vou embora, já estou de partida. Não, fique, eu imploro, cavemos o poço. Mas, tem que saber: é peito ainda moço, é frágil, o coitado, não vá tão depressa, senão fica acuado, não exceda em cuidado, senão morre de pressa… Se simples o fosse, não nascia na gente. Olha lá, lá na frente:

Para além do deserto
Para além da neblina

Miram água correndo, atroz
cristalina

Miram água lavando a tristeza
sovina

Para além do deserto
Para além da neblina

Corre um rio em silêncio
No coração da menina

Marina Tavares

mascara

É preciso fingir
Pregar à cara a máscara da certeza
Pisar firme, olhar os olhos
Disfarçar bem o quanto os apavoram

É preciso sorrir e beber e tragar
Como se aberto fosse às coisas do mundo
Como se com elas tivesse alguma irmandade
Embora e sempre esteja à margem
Mais espiando que as construindo

É preciso falar
Como se interesse houvesse
No entendimento alheio
É preciso atribuir importância
Acima de tudo, é preciso
atribuir importância

É preciso fingir real
A obrigação ilusória
A fila do banco, o supermercado
É preciso acreditá-los
O monólogo interminável dos vaidosos
É preciso escutá-lo e mais
É preciso aprendê-lo
(Não para sua apática repetição)

É preciso transitar
Infiltrar-se
Caminhar pelo passeio
Como parte do cardume
E fingir-se coletivo
Ser preciso é preciso
E precisado, se possível

E talvez, de tanto fingimento
Esqueça de fingir por um momento
E a própria face tornará visível

Marina Tavares

vida

Vê! Não é a vida uma grande maçada?
Ela é um fio que se entrelaça
Ensimesmada

Se desenrola, nos sorrimos orgulhosos
Para darmos novos nós com a linha usada
Se permanece, nos viramos pelo avesso
Corpo embrenhando por caminhos tortuosos
São só tropeços, que acreditamos caminhada

É que, no fundo, o percorrer é o tropeço
Uma travanca de mil faces transmutada
E nós aqui, na mesma busca pela estrada
Sem perceber que o que virá já foi começo

Ah, mas esta vida é mesmo enfadonha!
A mesma imagem na retina fatigada
Em outras formas se disfarça, se enquadra
Para mostrar-se a mesma forma quando sonha

Desta maneira (igualmente variada)
Eu a aceito e aceito sua trama
Que ainda hoje essa minha alma calejada
Notou-se estranha
E curiosa se espantou:

Como se hoje, já conhecido aquela chama
Queimasse alto, tal já não tivesse ousado
E hoje fosse, do mesmo jeito atrapalhado
A primeira vez que esse meu peito se encantou

Marina Tavares

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