Hoje, sou um eco.
Um eco a propagar possibilidades de ação, compreensão e sentidos pelo espaço do cotidiano.Os óculos de meu pai e sua poesia, a areia sob os pés na infância, o tato, o contato, o retrato entre as páginas de um livro, um desejo oprimido, o batom de minha mãe, tudo isto sou eu. Ao mesmo tempo, nada disto a mim pertence, tal um sonho que houvesse tido e ao acordar não fosse eu a tê-lo vivido.

Hoje, sou um eco.
Um eco que, se fitável, se mostraria um mosaico em constante mutação, no qual as vivências e querências se atraem, se repelem, se misturam num movimento infinito. Ao descer pela escada me deparei com um porão preenchido por baús preenchidos por lembranças e aspirações. Lá, me mirei no espelho:

Um corpo a habitar outro corpo a gravitar, uma criação divina, um acaso de uma evolução de ligações moleculares?

Hoje, sou um eco.
Um eco a ressoar inquietudes e busca, arraigadas no instinto de minha essência. Minha existência é o olhar de uma aranha, um caleidoscópio cujas facetas só a mim revelam, para além dos meus olhos, se unem, formam uma só a ser interpretada por outros olhos de outro alguém e seu próprio caleidoscópio.

A dúvida, a resposta, o engano, nada disto sacia, nada disto reprime. Certeza alguma pescada no espaço repreende a mão de quem insiste em prosseguir tateando o vento, na esperança de que outra certeza se prenda entre os dedos.

Sou um bicho, uma história, uma conversa na fila do banco, um elemento da paisagem do transeunte, o transeunte, um processo, uma tentativa, uma lembrança de infância de alguém cujo rosto se perdeu pelos baús.

À frente disto, sou o possível parto de minha essência, o potencial fruto de minha busca, a grande possibilidade de mim mesma.

Hoje, sou um eco. Amanhã, serei o grito.

Marina Tavares

Anúncios