Lá foi, pobre homem, perder a cabeça
Perder seu juízo pras bandas de lá
Lá foi sua cabeça rolar sobre as pedras
Perder-se nas trevas do próprio pensar
 
Lá foi, o coitado, deixar a folia
Deixar a utopia, deixar de queixar
Deixando que a morte se torne uma sorte
Se a morte, quem sabe, vier a chamar
 
Lá foi sua viola, que agora já muda
Sufoca a lembrança de ouvi-la soar
Calou poesia, gritou agonia
Nenhuma palavra ousou acordar
 
Lá foi a memória e nós, aqui fora,
Pensando se ainda há algo por lá
Quebrou o espelho, que do outro lado
Imagem nenhuma mais quis espelhar
 
Largou o sentido, cansou seus sentidos
De modo que o peito ainda possa aguentar
Soltou sua mente e hoje, dolente,
A voz rouca e frágil ainda tenta cantar

Marina Tavares

out/08

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