mascara

É preciso fingir
Pregar à cara a máscara da certeza
Pisar firme, olhar os olhos
Disfarçar bem o quanto os apavoram

É preciso sorrir e beber e tragar
Como se aberto fosse às coisas do mundo
Como se com elas tivesse alguma irmandade
Embora e sempre esteja à margem
Mais espiando que as construindo

É preciso falar
Como se interesse houvesse
No entendimento alheio
É preciso atribuir importância
Acima de tudo, é preciso
atribuir importância

É preciso fingir real
A obrigação ilusória
A fila do banco, o supermercado
É preciso acreditá-los
O monólogo interminável dos vaidosos
É preciso escutá-lo e mais
É preciso aprendê-lo
(Não para sua apática repetição)

É preciso transitar
Infiltrar-se
Caminhar pelo passeio
Como parte do cardume
E fingir-se coletivo
Ser preciso é preciso
E precisado, se possível

E talvez, de tanto fingimento
Esqueça de fingir por um momento
E a própria face tornará visível

Marina Tavares

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