novembro 2009


Paraná para cá

Leminskiano:
Palavra seta
Espeta a lira
Do cotidiano

Marina Tavares

AB13088

Nadinha de nada? Mentira, é maçada! Te falo, jurando com beijo no dedo. Aqui não tem nada que valha um segredo. Nem uma pontinha de algo com nome, nenhuma migalha que mate essa fome. Tá oco, vazio. Tem eco, cê ouve? Ouve, ouve, ve, ve… Verdade!E não é? Não pode, mulher. Conheço há tempos, já o vi transbordando, com mil sentimentos. Tem vez que é que tão quente que arde até a mente de quem chega perto. Pois hoje, tá seco até o horizonte, parece um deserto. E aquele aguaceiro jorrando adiante? Miragem, seu tolo, secou essa fonte. Não lembra? Esqueci. Para mim, ainda ontem o vi explodir. Bem sei, tinham cores e essas alegorias. Exato, e a isso chamava alegria. Alegria, bonita palavra. Se é… E se a gente o escava? Quem sabe no fundo não passe um rio? Mas, rio em deserto? Eu sei, é incerto. Mas, vale o esforço. Se há, lá no fundo, qualquer sentimento, a gente abre um poço e pula lá dentro. Você não tem medo? Mas, eu? Que rompante! Conheço essa terra, é só um peito errante, tipinho antigo… batido, eu diria. Um dia quer tudo, no outro, está mudo, opaco, sem vida… Esperto você, chegou inda agora e vem tocar na ferida?  Tudo bem, vou embora, já estou de partida. Não, fique, eu imploro, cavemos o poço. Mas, tem que saber: é peito ainda moço, é frágil, o coitado, não vá tão depressa, senão fica acuado, não exceda em cuidado, senão morre de pressa… Se simples o fosse, não nascia na gente. Olha lá, lá na frente:

Para além do deserto
Para além da neblina

Miram água correndo, atroz
cristalina

Miram água lavando a tristeza
sovina

Para além do deserto
Para além da neblina

Corre um rio em silêncio
No coração da menina

Marina Tavares