janeiro 2010


Ponteiro

Perdi a hora
a Hora da Estrela, A Estrela da Manhã
A manhã sendo tecida pelos galos de João
[Que amava Tereza e foi para o estrangeiro]
Perdi o trem com o menino
correndo Dentro da noite veloz
Perdi o tempo
[Que era quando
para quem houvesse espaço]

Perdi a hora e a estrela cadente
Já havia caído na mão de Leminski
O homem já havia saído da Tabacaria
E atravessado A Rua de Torquato
Perdi Cacaso e Alfredo da Rocha
Agenor de Oliveira, quantos perdi!

Perdi a hora
Tardiamente minha carne foi parida
E hoje me resta o papiro
E hoje me restam palavras
Me resta construir
com duas mãos
[mis alas que bastan
para tu libertad]

Marina Tavares

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Menino Meabraça


eu sou o Menino Meabraça, me abraça? um banho eu volto já e deputado vai votar em quem o celular vi que o dólar caiu vá ver o arroz um absurdo o ipva nesse tempo doido acho melhor não arriscar estrada esburacada um perigo a gente paga todo ano uma fortuna acham que a gente é trouxa. eu sou o Menino Meabraça, me abraça? quer ver um filme parece que saiu um daquele diretor aquele que eu vi naquela foto no programa o conselho da firma vai derrubar alguém amanhã não sei onde vai caber mais gente nessa cidade daqui a pouco vou ter que dividir a cama tatuar nome de namorado que burrice essas modelos não têm nada na cabeça mesmo vintecinco centavos um pãozinho olha o gás daqui a pouco vamos voltar pra lenha aquele consórcio pareceu um bom negócio vamos levar a molecada pra praia já pensou a alegria essas crianças de hoje só querem saber de videogame vai começar o jornal no intervalo coloca a lasanha no microondas. eu sou o Menino Meabraça, me abraça? booooom dia, amiguinho, um beijinho pra você! onde já se viu trezentosequarenta reais por mês pra um moleque desse tamanho cartilha agora é quase preço de livro de medicina a minha mãe disse que azeite quente é bom pra tersol esse troço teima em aparecer no menino culpa desse tanto de bobagem que ele come tem que pôr ele no inglês ah já chamou o rapaz pra ver esse chuveiro é um perigo ele ficar assim. eu sou o Menino meabraça, me abraça? booooom dia, pequenino, aqui é a sua amiguinha com um monte de desenho pra você! ambição do tirano com seteletras você sabe o carro hoje foi pra oficina fiquei no meio da rua. eu sou o Menino Meabraça, me abraça? pula comigo, amiguinho, você conhece a musiquinha, eram quatro, agora, três, vou contar mais uma vez! em quando eu acho que esse menino precisa de um oculista fica na frente desse troço o dia todo. eram cinco cachorrinhos, um saiu para brincar, ficaram quatro cachorrinhos. Eu sou o menino meabraça, Me abraça? um abraço pra você, amiguinho e, já sabe, amanhã, no mesmo horário, a sua amiguinha vai te dar um abraço deeeeeeesse tamanho!

Marina Tavares

“Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.” Fernando Pessoa

 

Conatus

A linha é contínua, a linha emaranha
A teia da linha, no centro, a aranha
Do centro da teia, avista dezenas
Centenas, milhares de linhas pequenas
E tenta escolhê-las, quiçá, percorrê-las
Mas tudo é confuso, um plano difuso
Não pode vencê-las, sequer entendê-las
A linha é contínua, ao passo que os passos
São curtos demais
De modo que mostra o ser incapaz
De ver o seu lume, deixar o perfume
No rastro por trás de cada passada
E quanto mais anda,  maior o caminho
No centro da teia, é só um menino
Ao longe um porto, avista uma escada
Mas tem pouco braço pra tanta braçada
E quanto mais anda,  mais linha enrola
Se lembra de quando, nos tempos de outrora
Por nada saber, se viu sapiente
Seu corpo dolente jogado na cama
A vida pulsando por suas entranhas
Um mundo adiante, que agora é tão grande
É grande demais
No centro da teia, o ser incapaz
Levanta bandeira, arrisca um poema
Mas não há maneira de ver seu dilema
Caído ao chão, vencido no grito
Que o peito aflito pra sempre quer mais
Que não há vivência que baste à memória
Percorre a teia montando sua história
A sua presença é pura querência
E a permanência é presa tão frágil…
No centro da teia, se é vulnerável
Aos ventos que invadem sem pedir licença
Derrubam o mosaico de sua existência
Que tenta colar diante do espelho
No centro da teia, em meio ao caminho
Imensos seus feitos? Ainda é sozinho
De olhos vendados, deixando pegadas
Pra sempre um menino:
Não sabe de nada.

Marina Tavares