“Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.” Fernando Pessoa

 

Conatus

A linha é contínua, a linha emaranha
A teia da linha, no centro, a aranha
Do centro da teia, avista dezenas
Centenas, milhares de linhas pequenas
E tenta escolhê-las, quiçá, percorrê-las
Mas tudo é confuso, um plano difuso
Não pode vencê-las, sequer entendê-las
A linha é contínua, ao passo que os passos
São curtos demais
De modo que mostra o ser incapaz
De ver o seu lume, deixar o perfume
No rastro por trás de cada passada
E quanto mais anda,  maior o caminho
No centro da teia, é só um menino
Ao longe um porto, avista uma escada
Mas tem pouco braço pra tanta braçada
E quanto mais anda,  mais linha enrola
Se lembra de quando, nos tempos de outrora
Por nada saber, se viu sapiente
Seu corpo dolente jogado na cama
A vida pulsando por suas entranhas
Um mundo adiante, que agora é tão grande
É grande demais
No centro da teia, o ser incapaz
Levanta bandeira, arrisca um poema
Mas não há maneira de ver seu dilema
Caído ao chão, vencido no grito
Que o peito aflito pra sempre quer mais
Que não há vivência que baste à memória
Percorre a teia montando sua história
A sua presença é pura querência
E a permanência é presa tão frágil…
No centro da teia, se é vulnerável
Aos ventos que invadem sem pedir licença
Derrubam o mosaico de sua existência
Que tenta colar diante do espelho
No centro da teia, em meio ao caminho
Imensos seus feitos? Ainda é sozinho
De olhos vendados, deixando pegadas
Pra sempre um menino:
Não sabe de nada.

Marina Tavares

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