Nunca a deixei me tocar profundamente. Olhava por sobre seus ombros, como se deles visse além, adiante. Sua conversa sempre me trouxe impaciência, a velha nova conversa: os mesmos assuntos, a mesma revolução de botequim (ou pior, a mesma contrarrevolução de botequim), a mesma pele bronzeada, circulando por uma mesma cena alternativa que, na maioria das vezes, mais parece a regra. Desde que a conheci, nunca me pareceu mostrar verdadeiramente a cara. Sempre assim, esguia e maquiada, ela ia. É bonita, admito, nasceu bonita e esse é o seu maior trunfo, sempre. Quando alguém se emputece por sua frieza, logo a perdoa por sua beleza. Somos assim.

Apesar dos pesares, há anos caminhamos lado a lado. A ela permiti que tivesse em mim alguns de seus trejeitos identificados. A mim ela permitiu que lhe amasse e odiasse, ora sim, ora não, sem jamais guardar rancor, a  generosa. É metódica, regrada, repetitiva. Sou inconstante, desorganizada, sedenta. Não poderia haver em nossa convivência conflito maior. Eu não preciso dela, tampouco, ela de mim. Haveríamos de ser, separadamente, da mesma maneira que unidas: ela com suas linhas pré-traçadas, eu com meus caminhos tortuosos.

Mas, hoje, andando por Santa Cecília, atravessando a Avenida São João, me dei conta que os nomes de santo não bastam, por mais cativantes. As esquinas, que encantam, não suprem quem cresceu sobre dois eixos. Hoje, caminhando por São Paulo, percebi que cidade não se escolhe, se nasce. E quero Brasília todinha pra mim.

Marina Tavares

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