maio 2011


                                                                Magritte

Com licença… Eu não reconheci firma em cartório, não assinei nenhuma autorização, não te aguardei segurando uma placa no desembarque do aeroporto, não solicitei a presença, ao guichê 04, do portador da senha 0112L, seu nome não consta em nenhuma lista de classificados, nem para um café com bolo na mesa da cozinha eu te convidei. E, mesmo assim, aí está você, sentado nessa cadeira, com esse sorriso no canto da boca e esse olhar que parece dizer tudo. Eu não escancarei nenhuma porta para que atravessasse impetuosamente esta sala, como um velho conhecido que jamais perde a intimidade. Peço, por favor, que, a partir do dado instante, troque seu nome, para que eu detenha o domínio de meus pensamentos quando o pronunciarem, que mude sua voz, para que meu peito seja preservado dessa percussão inquieta. Se possível, peço que mude suas feições e suas mãos e, se não for demais, mude também suas ideias, torne-se mesquinho, para que eu não mais admire sua integridade. Continua aí? Apague essa luz do seu olho, vamos! Mas, será o Benedito? Não falo com as paredes! Troque essa boca, esqueça essa música. Por favor, escolha mal suas palavras, para que eu não mais seja tomada por suas orações. Torne-se insensível, rude, amargo, troque esse cheiro – ah, esse cheiro! –  e, pelo amor de tudo que for mais sagrado… vista essa roupa! Não, não vista, vista. Não troque esse nome, troque. Não tenha outra boca, tenha. Não ouça essa música, ouça. Não, não faça isso, não me olhe assim, assim não respondo por mim. Já disse para fechar a camisa, fazer essa barba, esconder esse peito, botar essa calça, ser outra pessoa?

vira outro, se vira
ou minha cabeça revira
não posso com a noite abrasante
não posso com o ar ofegante
não posso eu com essa lira


Marina Tavares


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                                                       Weberson Santiago


Feito o tempo, feito o dia, restam as sandálias e a fadiga. Pelas paredes, pequenos rios a lembram da umidade humilhante, da fuga iminente. Precisa de um café, mas teme acender o fogão. Precisa de um ouvido para lhe escutar. Mas, feito o tempo, já não há. Somente bocas, pequenas bocas, ávidas por repetir respostas que sua boca não possui. Ela cala. Pelos noticiários, imagens de todos os cantos. E, em todas, o mesmo canto ordinário de outras bocas sem respostas. Chegaria ali. Ela sabia. Todos sabiam. Pela vizinhança, entre os pães recém-saídos dos fundos da padaria, entre rabiolas cruzando a fiação dos gatos, entre as cestas básicas envoltas em sacos pretos, entre os suores e os cansaços e os pequenos copos de aguardente ao cair da tarde: a possibilidade. Uma rede intransponível de certeza presente e incerteza futura.

Há os que têm parentes. Levam as mochilas dos meninos para outras bandas, que igualmente afundam em esquecimento, mas se mantém firmes sobre a terra úmida. Há os que permanecem, rijos de dignidade, trêmulos de humanidade. Os dias passam, tenta se manter serena, não quer que os pequenos percebam. Precisa ter o controle. O único que possui é um terço de contas sob os dedos fechados. Nossa Senhora dos Desesperados, valei-me. O mais novo pergunta o que é catástrofe natural. Ela não sabe. Até hoje, só conheceu a catástrofe.

Os olhos abrem de espanto. A água cai como líquido amniótico a escorrer pelas pernas: a dor seguinte é inevitável. Leva, dona Zumira, leva meus moleques pro asfalto. As crianças saem assustadas. Sozinha, com os pés já cobertos, tenta, em vão, retirar a água que começa a invadir a sala. Água de nuvem e lixo. Água salgada. O balde é pequeno e inútil. Precisa tentar. É o seu miserável espaço no mundo. É o muito que o mundo lhe deu. A lâmpada cada vez mais próxima. É loucura. A fraqueza está em tentar ser forte. Ela corre. Do lado de fora é lama corrente, gente corrente, vida corrente pela ribanceira. Leva, Teresa, leva meus moleques pro asfalto. Ela os pega pela mão e segue ladeira abaixo. É firme o chão no asfalto. Olha para os filhos da vizinha. Seus olhos tentam dizer que está tudo bem, como se dissesse para os seus próprios filhos, que seguram as mãos de outra vizinha, que os olha a tentar dizer que está tudo bem. O morro, montanha degelando, se desfaz diante deles.

É seguro voltar? Dizem pra ficarmos longe. Ainda pode cair. Não faz isso, Teresa. Eles não sabem o que dizem. É a minha casa. Teresa abre a porta. Não há casa. Os boletos das prestações da geladeira boiam ao lado da geladeira que boia. É uma parede de limbo. A casa morreu. Acaricia o enfeite em forma de coração de acrílico trincado: “Eu te amo”. Respira fundo. Do lado de fora, móveis, muitos móveis, de todas as casas da rua, de todas as ruas da comunidade. Ela mesma começa a retirar os seus. Cada balde de água leva consigo um punhado da raiva. Tudo posso naquele que me fortalece. Tira, limpa, varre, dignifica-se. Traz os filhos de volta.

O sol nasce e morre ao pé do morro. O sol nasce e morre, como há nascido e nascerá. Sua presença é calor e alívio. A casa vive. Vamos às contas e aos ratos. As estações passam. As nuvens voltam. Restam as sandálias, resta a fadiga. Precisa de um café, mas teme.

Enquanto o labor e o esquecimento forem a canção conduzente de seus dias, a chuva, que faz brotar a semente, que faz crescer o alimento, será o gatilho empunhado por mãos sujas e seus relógios dourados.

Marina Tavares

*texto publicado, originalmente, no jornal Brasil de Fato