Magritte

Com licença… Eu não reconheci firma em cartório, não assinei nenhuma autorização, não te aguardei segurando uma placa no desembarque do aeroporto, não solicitei a presença, ao guichê 04, do portador da senha 0112L, seu nome não consta em nenhuma lista de classificados, nem para um café com bolo na mesa da cozinha eu te convidei. E, mesmo assim, aí está você, sentado nessa cadeira, com esse sorriso no canto da boca e esse olhar que parece dizer tudo. Eu não escancarei nenhuma porta para que atravessasse impetuosamente esta sala, como um velho conhecido que jamais perde a intimidade. Peço, por favor, que, a partir do dado instante, troque seu nome, para que eu detenha o domínio de meus pensamentos quando o pronunciarem, que mude sua voz, para que meu peito seja preservado dessa percussão inquieta. Se possível, peço que mude suas feições e suas mãos e, se não for demais, mude também suas ideias, torne-se mesquinho, para que eu não mais admire sua integridade. Continua aí? Apague essa luz do seu olho, vamos! Mas, será o Benedito? Não falo com as paredes! Troque essa boca, esqueça essa música. Por favor, escolha mal suas palavras, para que eu não mais seja tomada por suas orações. Torne-se insensível, rude, amargo, troque esse cheiro – ah, esse cheiro! –  e, pelo amor de tudo que for mais sagrado… vista essa roupa! Não, não vista, vista. Não troque esse nome, troque. Não tenha outra boca, tenha. Não ouça essa música, ouça. Não, não faça isso, não me olhe assim, assim não respondo por mim. Já disse para fechar a camisa, fazer essa barba, esconder esse peito, botar essa calça, ser outra pessoa?

vira outro, se vira
ou minha cabeça revira
não posso com a noite abrasante
não posso com o ar ofegante
não posso eu com essa lira


Marina Tavares


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