dezembro 2011


* Texto publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

Abraço da Vênus

Não precisamos beber a beleza para que ela nos saia pelos poros. Tampouco, riscar seu traço negro por nossas pálpebras fatigadas. Não precisamos de seu vermelho, de sua fenda, de seu gingado que nos é ensinado desde antes de aprendermos a caminhar. Não precisamos de sua frágil malemolência, dos cabelos jogados, dos sorrisos forçados, dos ventres contraídos. Não precisamos de seus bicos finos, sua voz mansa, suas meias-calças e verdades. Não precisamos imitar a beleza, como se em nós ela já não habitasse, como se não fosse somente em nós que ela existisse, e não em nossa reprodução, em nossa fotografia, em nosso signo.

Estávamos em frente ao forno quente – a voz inaudível. Olhávamos para baixo com nossos vestidos recatados. Estávamos na louçaria areada, nas gravidezes, nos almoços de domingo. Erguemos os olhos: as páginas gritavam, erguemos os olhos e gritavam os outdoors, e gritavam as perfumarias e as academias com seus espelhos. Trancaram-nos em nossas vestes e hoje nos despem vorazmente. Apertam nossos pés, nossas cinturas e anseios. Sufocam-nos o corpo em outro corpo pré-moldado; outro corpo feito sem carne, sem linfa ou suor; outro corpo feito de imagem que nos precede, de imagem que nos entorpece as vontades com sua falsa liberdade.

Mudamos o curso do rio com nossas vozes, vozes doces, graves, serenas, intranquilas. Vozes que eram e são o que sempre serão: nossas. Fizemo-nos ouvir. Hoje, gritam nosso grito em nossos ouvidos. Sintetizam nossas escolhas em obrigação, sintetizam nossas singularidades em conduta. Vendem-nos independência, ao passo que consumimos a nossa sujeição.

Não nos contemos na sucintez de seus slogans, nem em predicados cochichados nas calçadas. Não é nosso o caminhar moribundo sob holofotes – a dentadura irretocável, a máscara de cal e poeira, os gestos afetados ou contidos. Nosso pulso pulsa, nosso peito arde. O pó do mármore amputado não é a gota do sangue que nos cora. Somos o que sempre soubemos, o que não nos carece ensinamentos – um pensar que se acende, um querer que se afaga, uma estrada que somente a cada uma de nós se revela, enquanto a todas nos une o fio invisível da existência, a paragem efêmera da vida: o escolhimento.

Marina Tavares 

Texto publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

 

Venâncio do manancial de todas as graças. Venâncio dos pés descalços, da laranjeira, do pau-a-pique. Venâncio de Bom Jesus da Lapa, que correu atrás da bola improvisada e sentou ao pé da cadeira de palha, esculpindo rostos na casca da macaxeira, enquanto a mãe talhava a raiz para torrar a farinha amarela. Venâncio banhado à margem do Velho Chico. Já lavei toda essa roupa, já fiz minha oração. Jesus limpa meus pecados, que o sabão não limpa não. Venâncio que cresceu entre grutas e recebeu na testa em cruz a água do rio. Venâncio que caminhou pela terra batida até a escola e lá aprendeu o fê, o guê, o lê, o mê. Venâncio do chapéu florido, das fitas coloridas, que agradeceu com uma vela cada graça concedida. Venâncio que ouviu o canto do preto e do branco da Gralha-cancã. Venâncio que quase aprendeu os oito baixos, que ouviu as histórias de Dona Maria, sentindo o cheiro da lenha queimando, da querosene do lampião. Venâncio que soube de cor o causo de Seu Izaías e, hoje, o conta como se fosse ele o menino que olhou para a cabeça de Virgulino, naquela escadaria em Piranhas. Venâncio, que se fartou de mugunzá, que tirou garapa da cana, que passou férias na capital envolta em mar e acarajé.

Venâncio que correu estrada afora, sacolejando em um ônibus da Itapemirim. Venâncio, dos olhos curiosos, das malas no Tietê. O que sentou nos degraus da Igreja da Sé e ouviu o improviso do pandeiro de Teodoro, a pregação inflamada do pastor dentro de um terno suado, o estalar dos fios do ônibus elétrico, seguindo seu trilho invertido. Venâncio da fila da agência de emprego, na República. Venâncio, o da cama de cima do beliche do canto, da vaga alugada na pensão no Largo do Arouche. O que economizou dois anos de ordenado para trazer Teresa e Dinho. Venâncio que ajeitou seu canto no Sacomã, que subiu tijolo, empurrou carrinho de milho, que vendeu bala e chocolate na porta da estação Artur Alvim. Venâncio, que pagou, boleto por boleto, as vinte e quatro prestações das Casas Bahia. Que subiu, com Otacílio, a laje para puxar o quarto do bacuri que vai chegar. Venâncio que decidiu terminar os estudos à noite e tomou por sua a alegria de Dinho ao ver, pela primeira vez, as luzes do parque de diversões na Barra Funda.

Venâncio, agora, é o das bandejas, do avental, das comandas amarelas. Venâncio, o chefia, o amigão, o companheiro, entre o leva e traz de tulipas transparentes, do dourado da cerveja, do cheiro de fritura da macaxeira que um dia viu sair da terra. Venâncio, que carrega em seus gestos involuntários, em sua coreografia certeira por entre as mesas, o trejeito do menino que subiu e desceu ribanceira, que se lambuzou de siriguela, que cheirou a açucena e a murcha flor do mandacaru. A cada vogal aberta de seu sotaque manhoso, a cada sorriso caloroso, a cada Assum Preto assobiado baixinho, em meio ao falatório indiferente do bar na Aclimação, Venâncio, sem saber, reveste de humanidade a palidez dessa grande São Paulo. Venâncio e todos os seus conterrâneos.

 Marina Tavares