Texto publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

 

Venâncio do manancial de todas as graças. Venâncio dos pés descalços, da laranjeira, do pau-a-pique. Venâncio de Bom Jesus da Lapa, que correu atrás da bola improvisada e sentou ao pé da cadeira de palha, esculpindo rostos na casca da macaxeira, enquanto a mãe talhava a raiz para torrar a farinha amarela. Venâncio banhado à margem do Velho Chico. Já lavei toda essa roupa, já fiz minha oração. Jesus limpa meus pecados, que o sabão não limpa não. Venâncio que cresceu entre grutas e recebeu na testa em cruz a água do rio. Venâncio que caminhou pela terra batida até a escola e lá aprendeu o fê, o guê, o lê, o mê. Venâncio do chapéu florido, das fitas coloridas, que agradeceu com uma vela cada graça concedida. Venâncio que ouviu o canto do preto e do branco da Gralha-cancã. Venâncio que quase aprendeu os oito baixos, que ouviu as histórias de Dona Maria, sentindo o cheiro da lenha queimando, da querosene do lampião. Venâncio que soube de cor o causo de Seu Izaías e, hoje, o conta como se fosse ele o menino que olhou para a cabeça de Virgulino, naquela escadaria em Piranhas. Venâncio, que se fartou de mugunzá, que tirou garapa da cana, que passou férias na capital envolta em mar e acarajé.

Venâncio que correu estrada afora, sacolejando em um ônibus da Itapemirim. Venâncio, dos olhos curiosos, das malas no Tietê. O que sentou nos degraus da Igreja da Sé e ouviu o improviso do pandeiro de Teodoro, a pregação inflamada do pastor dentro de um terno suado, o estalar dos fios do ônibus elétrico, seguindo seu trilho invertido. Venâncio da fila da agência de emprego, na República. Venâncio, o da cama de cima do beliche do canto, da vaga alugada na pensão no Largo do Arouche. O que economizou dois anos de ordenado para trazer Teresa e Dinho. Venâncio que ajeitou seu canto no Sacomã, que subiu tijolo, empurrou carrinho de milho, que vendeu bala e chocolate na porta da estação Artur Alvim. Venâncio, que pagou, boleto por boleto, as vinte e quatro prestações das Casas Bahia. Que subiu, com Otacílio, a laje para puxar o quarto do bacuri que vai chegar. Venâncio que decidiu terminar os estudos à noite e tomou por sua a alegria de Dinho ao ver, pela primeira vez, as luzes do parque de diversões na Barra Funda.

Venâncio, agora, é o das bandejas, do avental, das comandas amarelas. Venâncio, o chefia, o amigão, o companheiro, entre o leva e traz de tulipas transparentes, do dourado da cerveja, do cheiro de fritura da macaxeira que um dia viu sair da terra. Venâncio, que carrega em seus gestos involuntários, em sua coreografia certeira por entre as mesas, o trejeito do menino que subiu e desceu ribanceira, que se lambuzou de siriguela, que cheirou a açucena e a murcha flor do mandacaru. A cada vogal aberta de seu sotaque manhoso, a cada sorriso caloroso, a cada Assum Preto assobiado baixinho, em meio ao falatório indiferente do bar na Aclimação, Venâncio, sem saber, reveste de humanidade a palidez dessa grande São Paulo. Venâncio e todos os seus conterrâneos.

 Marina Tavares
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