palavra


Sim

Ata os laços, conduz esse nosso caminho
Em par, revela a vida a própria sorte
Bem quando se escorre, em dupla morte
E faz tornar completo o ser sozinho

No leito, dois em um, despercebidos
Se findam, num só gozo soberano
Inúmeros caminhos percorridos

Se já pensamos entre nós haver enganos
Nós descobrimos: engano é a incerteza
Qualquer distância que desuna é aspereza
Que já não cabe na grandeza de meus planos

Marina Tavares

 

Hoje, sou um eco.
Um eco a propagar possibilidades de ação, compreensão e sentidos pelo espaço do cotidiano.Os óculos de meu pai e sua poesia, a areia sob os pés na infância, o tato, o contato, o retrato entre as páginas de um livro, um desejo oprimido, o batom de minha mãe, tudo isto sou eu. Ao mesmo tempo, nada disto a mim pertence, tal um sonho que houvesse tido e ao acordar não fosse eu a tê-lo vivido.

Hoje, sou um eco.
Um eco que, se fitável, se mostraria um mosaico em constante mutação, no qual as vivências e querências se atraem, se repelem, se misturam num movimento infinito. Ao descer pela escada me deparei com um porão preenchido por baús preenchidos por lembranças e aspirações. Lá, me mirei no espelho:

Um corpo a habitar outro corpo a gravitar, uma criação divina, um acaso de uma evolução de ligações moleculares?

Hoje, sou um eco.
Um eco a ressoar inquietudes e busca, arraigadas no instinto de minha essência. Minha existência é o olhar de uma aranha, um caleidoscópio cujas facetas só a mim revelam, para além dos meus olhos, se unem, formam uma só a ser interpretada por outros olhos de outro alguém e seu próprio caleidoscópio.

A dúvida, a resposta, o engano, nada disto sacia, nada disto reprime. Certeza alguma pescada no espaço repreende a mão de quem insiste em prosseguir tateando o vento, na esperança de que outra certeza se prenda entre os dedos.

Sou um bicho, uma história, uma conversa na fila do banco, um elemento da paisagem do transeunte, o transeunte, um processo, uma tentativa, uma lembrança de infância de alguém cujo rosto se perdeu pelos baús.

À frente disto, sou o possível parto de minha essência, o potencial fruto de minha busca, a grande possibilidade de mim mesma.

Hoje, sou um eco. Amanhã, serei o grito.

Marina Tavares

Gira- Ciclo

O ciclo do círculo gira
O ciclo te leva em seu girar
Não há começo nem fim neste ciclo
Pergunto então: o que há?

Há o sentido em que se gira o ciclo
E há o pensar sobre seu girar
Ser levado, calado, em teu círculo
Ou no círculo a si mesmo levar?

Interromper o ciclo que gira
Sem se perder em seu próprio girar
Permanecer no círculo que leva
Sem que o deixe seu corpo levar

Girar sem estar em tal ciclo
Quão ambíguo isto pode soar!
Na contramão do sentido do ciclo
Que devemos, por nós, caminhar

Marina Tavares

 

 

Nasci
na asa
de um
avião
que não
aprendeu
a voar

Marina Tavares