Magritte

Com licença… Eu não reconheci firma em cartório, não assinei nenhuma autorização, não te aguardei segurando uma placa no desembarque do aeroporto, não solicitei a presença, ao guichê 04, do portador da senha 0112L, seu nome não consta em nenhuma lista de classificados, nem para um café com bolo na mesa da cozinha eu te convidei. E, mesmo assim, aí está você, sentado nessa cadeira, com esse sorriso no canto da boca e esse olhar que parece dizer tudo. Eu não escancarei nenhuma porta para que atravessasse impetuosamente esta sala, como um velho conhecido que jamais perde a intimidade. Peço, por favor, que, a partir do dado instante, troque seu nome, para que eu detenha o domínio de meus pensamentos quando o pronunciarem, que mude sua voz, para que meu peito seja preservado dessa percussão inquieta. Se possível, peço que mude suas feições e suas mãos e, se não for demais, mude também suas ideias, torne-se mesquinho, para que eu não mais admire sua integridade. Continua aí? Apague essa luz do seu olho, vamos! Mas, será o Benedito? Não falo com as paredes! Troque essa boca, esqueça essa música. Por favor, escolha mal suas palavras, para que eu não mais seja tomada por suas orações. Torne-se insensível, rude, amargo, troque esse cheiro – ah, esse cheiro! –  e, pelo amor de tudo que for mais sagrado… vista essa roupa! Não, não vista, vista. Não troque esse nome, troque. Não tenha outra boca, tenha. Não ouça essa música, ouça. Não, não faça isso, não me olhe assim, assim não respondo por mim. Já disse para fechar a camisa, fazer essa barba, esconder esse peito, botar essa calça, ser outra pessoa?

vira outro, se vira
ou minha cabeça revira
não posso com a noite abrasante
não posso com o ar ofegante
não posso eu com essa lira


Marina Tavares


                                                       Weberson Santiago


Feito o tempo, feito o dia, restam as sandálias e a fadiga. Pelas paredes, pequenos rios a lembram da umidade humilhante, da fuga iminente. Precisa de um café, mas teme acender o fogão. Precisa de um ouvido para lhe escutar. Mas, feito o tempo, já não há. Somente bocas, pequenas bocas, ávidas por repetir respostas que sua boca não possui. Ela cala. Pelos noticiários, imagens de todos os cantos. E, em todas, o mesmo canto ordinário de outras bocas sem respostas. Chegaria ali. Ela sabia. Todos sabiam. Pela vizinhança, entre os pães recém-saídos dos fundos da padaria, entre rabiolas cruzando a fiação dos gatos, entre as cestas básicas envoltas em sacos pretos, entre os suores e os cansaços e os pequenos copos de aguardente ao cair da tarde: a possibilidade. Uma rede intransponível de certeza presente e incerteza futura.

Há os que têm parentes. Levam as mochilas dos meninos para outras bandas, que igualmente afundam em esquecimento, mas se mantém firmes sobre a terra úmida. Há os que permanecem, rijos de dignidade, trêmulos de humanidade. Os dias passam, tenta se manter serena, não quer que os pequenos percebam. Precisa ter o controle. O único que possui é um terço de contas sob os dedos fechados. Nossa Senhora dos Desesperados, valei-me. O mais novo pergunta o que é catástrofe natural. Ela não sabe. Até hoje, só conheceu a catástrofe.

Os olhos abrem de espanto. A água cai como líquido amniótico a escorrer pelas pernas: a dor seguinte é inevitável. Leva, dona Zumira, leva meus moleques pro asfalto. As crianças saem assustadas. Sozinha, com os pés já cobertos, tenta, em vão, retirar a água que começa a invadir a sala. Água de nuvem e lixo. Água salgada. O balde é pequeno e inútil. Precisa tentar. É o seu miserável espaço no mundo. É o muito que o mundo lhe deu. A lâmpada cada vez mais próxima. É loucura. A fraqueza está em tentar ser forte. Ela corre. Do lado de fora é lama corrente, gente corrente, vida corrente pela ribanceira. Leva, Teresa, leva meus moleques pro asfalto. Ela os pega pela mão e segue ladeira abaixo. É firme o chão no asfalto. Olha para os filhos da vizinha. Seus olhos tentam dizer que está tudo bem, como se dissesse para os seus próprios filhos, que seguram as mãos de outra vizinha, que os olha a tentar dizer que está tudo bem. O morro, montanha degelando, se desfaz diante deles.

É seguro voltar? Dizem pra ficarmos longe. Ainda pode cair. Não faz isso, Teresa. Eles não sabem o que dizem. É a minha casa. Teresa abre a porta. Não há casa. Os boletos das prestações da geladeira boiam ao lado da geladeira que boia. É uma parede de limbo. A casa morreu. Acaricia o enfeite em forma de coração de acrílico trincado: “Eu te amo”. Respira fundo. Do lado de fora, móveis, muitos móveis, de todas as casas da rua, de todas as ruas da comunidade. Ela mesma começa a retirar os seus. Cada balde de água leva consigo um punhado da raiva. Tudo posso naquele que me fortalece. Tira, limpa, varre, dignifica-se. Traz os filhos de volta.

O sol nasce e morre ao pé do morro. O sol nasce e morre, como há nascido e nascerá. Sua presença é calor e alívio. A casa vive. Vamos às contas e aos ratos. As estações passam. As nuvens voltam. Restam as sandálias, resta a fadiga. Precisa de um café, mas teme.

Enquanto o labor e o esquecimento forem a canção conduzente de seus dias, a chuva, que faz brotar a semente, que faz crescer o alimento, será o gatilho empunhado por mãos sujas e seus relógios dourados.

Marina Tavares

*texto publicado, originalmente, no jornal Brasil de Fato



                                                                  Hokusai

Para un amor que no ha nacido

El silencio es la más clara palabra
En la rareza de esta hora extrema
Cuando el deseo es la guía
Y lejos está el ojo que sobre él no reposa
En esta pelea para contener las venas

El silencio es la sencillez de la verdad
Refleja en su letargo la respuesta ya sabida
Y dice que la vida sólo puede ser vivida
Dondequiera que esté el pensamiento
Que lo cambia a cada movimiento
Y lo que fue llegada, pronto se volvió partida

Manos, pelos y la risa
Son encantos del desconocido
Y tal vez lo sean por no haber vivido
Quizá se basten en haberlo querido
Sutil y fluido como la leve brisa

El espacio del recuerdo del momento
Contiene la fuerza del puro sentimiento
Que no se muere lo que no ha nacido

Marina Tavares


Klimt

A gente quer é um olho pregado na nossa existência. A gente quer é testemunha, toda ela. Nunca vi um só sujeito desenquadrado. Se o fosse, nem sujeito era. A gente quer é a interpretação da gente mesmo. E não há interpretação sem quem penetre. A gente quer é um passo do lado do nosso, pra lembrar que pegada é bem de quem pisa. O que existe, existe diante do rastro. É por isso que a gente se aglutina, toda ela. Faz amigo, amor, tesão. A gente cria laço. Que laço não amarra, lembra. Lembra, pelo olho alheio, que nosso olho é visto. Se visto, existe.

A gente quer é ver a outra existência e nela enxergar o que tem ou não de nós. Nada somos, senão exclusão. Nele, o que não há de mim o torna. Por isso, sou. Por não sê-lo, me assiste. E assim o quero. Todos nós. Ah, a gente quer é uma mão que pegue a nossa, pra provar que temos mão pra encostar.

Somos através do outro. O precisamos para nos saber. Por isso, o olho que a gente busca é olho que admire. Quiçá, seremos o que vêem, admiravelmente.

E assim seguimos, singularmente: emparelhados.

Marina Tavares

* Ana ama o galo, o mar, o ramo. O lago ama Ana?

* Mega rima é a miragem.

*E dá duas… saudade.

* A maca aloca a cola: a cama?

Marina Tavares

Sim

Ata os laços, conduz esse nosso caminho
Em par, revela a vida a própria sorte
Bem quando se escorre, em dupla morte
E faz tornar completo o ser sozinho

No leito, dois em um, despercebidos
Se findam, num só gozo soberano
Inúmeros caminhos percorridos

Se já pensamos entre nós haver enganos
Nós descobrimos: engano é a incerteza
Qualquer distância que desuna é aspereza
Que já não cabe na grandeza de meus planos

Marina Tavares

Nunca a deixei me tocar profundamente. Olhava por sobre seus ombros, como se deles visse além, adiante. Sua conversa sempre me trouxe impaciência, a velha nova conversa: os mesmos assuntos, a mesma revolução de botequim (ou pior, a mesma contrarrevolução de botequim), a mesma pele bronzeada, circulando por uma mesma cena alternativa que, na maioria das vezes, mais parece a regra. Desde que a conheci, nunca me pareceu mostrar verdadeiramente a cara. Sempre assim, esguia e maquiada, ela ia. É bonita, admito, nasceu bonita e esse é o seu maior trunfo, sempre. Quando alguém se emputece por sua frieza, logo a perdoa por sua beleza. Somos assim.

Apesar dos pesares, há anos caminhamos lado a lado. A ela permiti que tivesse em mim alguns de seus trejeitos identificados. A mim ela permitiu que lhe amasse e odiasse, ora sim, ora não, sem jamais guardar rancor, a  generosa. É metódica, regrada, repetitiva. Sou inconstante, desorganizada, sedenta. Não poderia haver em nossa convivência conflito maior. Eu não preciso dela, tampouco, ela de mim. Haveríamos de ser, separadamente, da mesma maneira que unidas: ela com suas linhas pré-traçadas, eu com meus caminhos tortuosos.

Mas, hoje, andando por Santa Cecília, atravessando a Avenida São João, me dei conta que os nomes de santo não bastam, por mais cativantes. As esquinas, que encantam, não suprem quem cresceu sobre dois eixos. Hoje, caminhando por São Paulo, percebi que cidade não se escolhe, se nasce. E quero Brasília todinha pra mim.

Marina Tavares